Análise de Lost Soul Aside (PS5)

Finalmente ter a chance de jogar um título pelo qual você esperou anos pode ser um desafio. As expectativas mudam bastante nesse período, seja por causa de trailers, anúncios ou até mesmo pelas mudanças que o próprio projeto enfrenta.

Lost Soul Aside percorreu um caminho complicado até chegar onde está. Começando como um projeto de uma única pessoa, o jogo ganhou proporções bem maiores quando a PlayStation decidiu apoiá-lo através do seu China Hero Project, que visa ajudar estúdios chineses talentosos.

Apesar das ambições grandiosas, a essência indie de Lost Soul Aside ainda pode ser sentida. O jogo transparece uma paixão evidente, com inspirações claras em séries como Devil May Cry e o catálogo da PlatinumGames. A proposta é um verdadeiro tributo ao gênero de ação.

Entretanto, essa ação frenética e repleta de reações acaba cercada por camadas típicas do design de jogos modernos. Lost Soul Aside não pode ser apenas um jogo de ação; ele precisa incluir uma história genérica, diálogos que parecem forçados, árvores de habilidades, itens para craftar e loot que proporciona ganhos quase invisíveis.

Mas, curiosamente, a versão final não parece estar sobrecarregada. As adições que mencionamos parecem mais como algo que foi colocado ali para justificar o preço de um jogo de PS5, ao invés de refletirem o projeto original do seu criador em 2014.

Se o criador Yang Bing já tinha definido a história de Lost Soul Aside há anos, o que sabemos é que essa narrativa é um dos pontos mais fracos do jogo. A dublagem em inglês é um pouco falha, e a história é cansativa. Tem um império opressivo, um bando de rebeldes, e um inimigo sobrenatural que foi supostamente derrotado há mil anos, mas que retorna para ameaçar a humanidade.

A construção do mundo é praticamente inexistente, limitando-se a algumas biografias de personagens escondidas nos menus. E, convenhamos, os personagens são bem superficiais. O jogo não é excessivamente recheado de diálogos — ainda bem — mas parece que espera que você se importe o suficiente para interagir com eles de vez em quando.

Kaser é o protagonista, e ele não impressiona. Seu espírito de dragão, que é excessivamente falante, não ajuda. A narrativa se torna clichê, cheia de tropos, e os nomes fantasiosos jogados sem explicação tornam tudo ainda mais confuso.

Mas, sejamos francos, você não joga um jogo como Devil May Cry pela narrativa. E Lost Soul Aside também não é diferente; só que a história aqui ocupa muito mais tempo do que nas clássicas aventuras da Capcom. A boa notícia é que a ação empolgante prometida desde o anúncio do jogo praticamente cumpre o que promete.

O combate gira em torno de combos chamativos, golpes especiais e duas técnicas defensivas essenciais: desviar e bloquear. Nos primeiros momentos, pode ser difícil perceber a profundidade da ação, mas ao enfrentar alguns chefes e adquirir novas armas, dá pra notar que muito esforço foi dedicado a oferecer liberdade ao jogador.

Se você se depara com inimigos comuns, vai querer brilhar, soltando combos e mostrando quem manda. Porém, não pense que você é invencível. Enfrentar múltiplos inimigos pode ser um desafio real. Os chefes, por outro lado, trazem uma variedade incrível de inimigos para você derrotar.

Embora o sistema de combate perca um pouco de seu frescor contra esses adversários poderosos — que não podem ser paralisados até que você destrua sua armadura — o espetáculo de cada batalha geralmente compensa esse ritmo mais metódico.

Esses são os momentos em que suas esquivas e bloqueios precisam estar no ponto. Há um chefe, talvez a três ou quatro horas de jogo, que atua como uma barreira antes de liberar o resto da aventura. É um pico dramático de dificuldade — e certamente vai gerar críticas — mas superá-lo faz você entender realmente do que Lost Soul Aside se trata.

Essas esquivas e bloqueios não podem ser feitos repetidamente. As janelas de tempo são bem mais curtas do que se imagina. Para ajudar, alguns ataques que podem ser parados têm efeitos visuais azuis. Prepare-se para muitas mortes enquanto você aprende os padrões e as dicas dos chefes.

Lost Soul Aside não é um jogo brutalmente difícil, mas definitivamente é exigente — e não há configurações de dificuldade para ajudar. Sua dificuldade pode lembrar Black Myth: Wukong, um outro título chinês em que você tem várias opções defensivas eficazes, mas o desafio está em utilizá-las corretamente.

Gostamos da ação, mas em alguns momentos sentimos que falta um certo peso. O estilo de luta de Kaser é ágil e elegante, mas alguns ataques são pouco impactantes, seja por animações flutuantes ou pela falta de efeitos sonoros. Isso pode tirar um pouco a satisfação das batalhas.

Isso pode estar ligado às raízes indie do jogo. O polimento que geralmente acompanha um título de $70 está ausente em Lost Soul Aside. Os modelos de personagens parecem de cera, os ambientes têm um ar de improviso, e a performance técnica apresenta falhas.

Se formos detalhar isso, o jogo mantém uma taxa de quadros suave durante as batalhas, mas apresenta engasgos estranhos ao explorar, mesmo no PS5 Pro. A mistura de áudio também deixa a desejar; a música pode sumir abruptamente ao mudar de uma cena para outra, e certos efeitos sonoros parecem acabar de forma abrupta.

E sim, jogamos Lost Soul Aside já com a sua atualização de lançamento instalada. Há ajustes a serem feitos, sem dúvida.

Comentários estão fechados.