Dragon Quest VII Reimagined – Vale a pena?

Você já teve aquela sensação de reencontrar um velho amigo e perceber que, embora a essência seja a mesma, ele mudou tanto que parece outra pessoa? É exatamente esse o sentimento ao iniciar a jornada em Dragon Quest VII Reimagined. A franquia, que sempre foi o porto seguro dos amantes do RPG por turnos, decidiu arriscar. Enquanto aguardamos ansiosamente pelo décimo segundo capítulo da saga, a Square Enix nos presenteia com uma reimaginação de um dos títulos mais divisivos — e longos — da história do PlayStation One.
Para quem cresceu explorando mundos de pixels ou polígonos datados, a primeira coisa que atinge o coração é o visual. Esqueça o HD-2D que vimos recentemente nos remakes dos primeiros jogos. Aqui, a aposta é em algo que parece ter saído de uma prateleira de colecionador: cenários que lembram pequenos dioramas e personagens que parecem bonecos de verdade, digitalizados com uma técnica que preserva texturas de tecido e argila. É impossível não se sentir transportado para uma fábula interativa, onde cada detalhe foi esculpido para gerar uma conexão emocional imediata com o jogador.
Uma jornada fragmentada que respeita o seu tempo
A premissa continua fascinante e carrega aquele DNA de aventura clássica que só Akira Toriyama e Yuji Horii conseguem criar. Você começa como o filho de um simples pescador em uma ilha isolada, acreditando que aquele é o único pedaço de terra no mundo. A descoberta de um santuário misterioso muda tudo, lançando você e seus amigos em uma missão de viagem no tempo para restaurar continentes perdidos. Cada ilha que você visita funciona como um conto isolado, uma pequena crônica de problemas e soluções que, aos poucos, monta o quebra-cabeça do mapa-múndi.
A grande vitória desta versão “Reimagined” é, sem dúvida, o ritmo. O título original era famoso por ser uma prova de resistência, muitas vezes exigindo dezenas de horas antes mesmo de você ver a primeira batalha ou desbloquear o sistema de classes. Agora, em menos de 30 minutos, você já está empunhando sua espada. Essa agilidade é um alento para quem tem uma rotina corrida, mas não quer abrir mão de uma narrativa épica. O jogo respeita o seu tempo, permitindo que a história flua sem os “tapa-buracos” excessivos do passado.
Mecânicas modernas para um público exigente

Se você é do tipo que odeia ser interrompido por batalhas aleatórias a cada três passos, pode comemorar. Em Dragon Quest VII Reimagined, os monstros estão visíveis no mapa. Você escolhe quando lutar e quando simplesmente desviar para alcançar aquele baú no fundo da caverna. Mais do que isso: o jogo introduziu um sistema de personalização de dificuldade que deveria ser padrão em todo RPG moderno. Sentiu que os chefes estão fáceis demais? Aumente o dano recebido. Quer focar apenas na história? Aumente o ganho de ouro e experiência.
Uma das adições mais empolgantes é o sistema de “Moonlighting”. Agora, seus personagens podem equipar duas vocações (classes) simultaneamente. Isso cria um leque de possibilidades estratégicas absurdo. Imagine combinar a força bruta de um Gladiador com a magia de cura de um Sacerdote, evoluindo ambos ao mesmo tempo. É satisfatório, intuitivo e remove aquela sensação de “travamento” que muitas vezes sentimos ao tentar experimentar novas builds em jogos do gênero.
Nem tudo são flores no jardim de Estard

Apesar de todas as melhorias de qualidade de vida, alguns problemas estruturais ainda podem frustrar os jogadores mais impacientes. O ponto mais crítico é a falta de localização para o português brasileiro. Em um jogo onde a narrativa e os diálogos são o prato principal, a ausência do nosso idioma é uma barreira considerável. Além disso, a tradução para o inglês abusa de dialetos regionais exagerados, o que torna a leitura cansativa e, em alguns momentos, confusa.
Outra decisão de design que pode causar dor de cabeça é o sistema de Mini Medalhas. Embora pareçam itens opcionais, o jogo esconde uma tabuleta de pedra essencial para a progressão da história principal atrás de uma meta de 50 medalhas coletadas. Se você não for do tipo que quebra todos os vasos e vasculha cada gaveta desde o início, corre o risco de ter sua jornada interrompida abruptamente, sendo forçado a revisitar cidades antigas em uma busca maçante por colecionáveis. É um resquício de uma filosofia de design antiga que não precisava ter sobrevivido ao remake.
Vale a pena investir nesta aventura?
Ao final das contas, Dragon Quest VII Reimagined é um ato de equilíbrio. Ele tenta agradar ao veterano que busca nostalgia e ao novato que não tem paciência para as asperezas dos RPGs dos anos 90. O visual de diorama pode não ser para todos, especialmente para quem prefere algo mais realista ou o anime clássico vibrante, mas o carisma dos monstros e a fluidez das animações de combate são inegáveis.
Se você está procurando um “Meu Primeiro Dragon Quest” ou quer revisitar essa história com muito mais conveniência, este lançamento é obrigatório. Ele simplifica o desnecessário e potencializa o que há de melhor: a sensação de descoberta e o prazer de ver o mundo voltando à vida através das suas ações. Prepare-se para se emocionar com os pequenos contos de cada ilha e, claro, para perder algumas horas admirando o queixo icônico do Príncipe Kiefer.




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